O Grau de Incerteza no Desenvolvimento de Software
Por que começar com código às vezes é o erro?
Desenvolver um produto de software é difícil. Isso acontece, em grande parte, pelo alto grau de incerteza envolvido em todo o processo. Muitas vezes, não sabemos exatamente o que deve ser feito, tampouco como deve ser feito. E considerando que diversos projetos nascem de ideias vagas ou mal formuladas, é natural que os primeiros passos sejam repletos de dúvidas, suposições e ajustes de rota.
Esse grau de incerteza desencadeia uma série de problemas em cadeia. Não saber exatamente o que deve ser feito compromete diretamente o como. A ausência de clareza na execução dificulta estimativas de prazo e custo. Quanto maior a demora, maior o custo. A pressão por resultados rápidos prejudica a qualidade, gerando produtos instáveis, com bugs e retrabalho constante. Isso alimenta um ciclo onde a entrega fica cada vez mais distante da solução esperada.
Importante reconhecer: não existe solução definitiva para a incerteza no desenvolvimento de software. Trata-se de um processo criativo, e por natureza, incerto. Isso explica por que a indústria falha repetidamente em estimar prazos com precisão. E também por que esse é um dos pontos de maior atrito entre as áreas de negócio e tecnologia.
Apesar disso, é possível reduzir a incerteza. E isso é feito com:
Boa comunicação entre as partes envolvidas;
Aprofundamento nas ideias antes de começar a executar;
Clareza dos objetivos e contextos;
Métodos para análise de riscos e tomada de decisão (por exemplo, análises de prós e contras).
Um Caso Real
Meu sócio decidiu iniciar um produto e contratou um freelancer para desenvolver o MVP. O problema era justamente o grau de incerteza: ele repassava ideias vagas e o desenvolvedor tentava entender e executar. Um produto chegou a surgir, mas a evolução foi caótica. Novas ideias entravam em conflito com o que já havia sido feito, gerando retrabalho. O custo aumentava. E como o freelancer era pago apenas para entregar, ele não dedicava energia para prever problemas futuros ou estruturar soluções manuteníveis.
Foi quando assumi a coordenação e o desenvolvimento. O objetivo era reduzir o grau de incerteza. E curiosamente, o trabalho não começou escrevendo código.
A redução da incerteza começou por três passos fundamentais:
1. Pensar Estrategicamente
Comecei entendendo o objetivo de médio e longo prazo. A partir disso, defini um roadmap mínimo com etapas claras, que permitisse alcançar esse objetivo em ciclos iterativos e viáveis. Avaliei quais tecnologias e abordagens tornariam essa meta possível, considerando experiências anteriores e limitações operacionais. Classifiquei cada parte do roadmap quanto a risco, complexidade e dependências: o que era simples e já tinha solução conhecida, o que exigia pesquisa e onde estavam os maiores pontos de bloqueio. Isso trouxe clareza para onde investir mais energia e onde era seguro avançar mais rapidamente.
2. Planejar e Especificar
Com base na estratégia, planejei as tarefas e descrevi cada uma com clareza. O desenvolvedor sabia exatamente o que fazer, por que fazer e qual era o impacto da tarefa dentro do todo. Isso permitiu que ele também sugerisse soluções alternativas, contribuindo para a redução dos riscos.
3. Execução sem Surpresas
A execução fluiu sem dúvidas, sem partes faltando e com mais confiança no processo.
Também trouxe um desenvolvedor mais experiente para apoiar tecnicamente e evitar soluções improvisadas por falta de experiência.
Resultado
O desenvolvimento deixou de ser um caos e passou a seguir um ciclo consistente: pensar → definir → detalhar → executar. Uma esteira de produção fluida, com mais previsibilidade e menos desperdício.
No fim das contas, reduzir o grau de incerteza é o primeiro passo para construir produtos melhores. Isso exige mais do que escrever código: exige pensar antes de executar.
Aprendizados
Incerteza é inevitável no desenvolvimento de software. Por ser um processo criativo, nunca teremos total previsibilidade de prazo, custo ou execução.
Ideias vagas geram execução fraca. Quanto mais indefinido o “o quê”, mais problemático será o “como”. Isso aumenta custo, retrabalho e frustração.
Pensar estrategicamente é o primeiro passo. Antes de começar a programar, é preciso entender o objetivo, traçar um caminho mínimo e identificar riscos e complexidades.
Clareza reduz desperdício. Tarefas bem descritas e contextualizadas evitam dúvidas, permitem contribuições relevantes e aceleram a execução.
Freelancers entregam o que foi pedido não o que seria melhor. Esperar que alguém mal remunerado ou sem contexto pense estrategicamente é ilusão.
Iniciar com estrutura reduz riscos futuros. Mesmo que o projeto seja pequeno, ter um mínimo de estratégia e organização desde o início evita acúvulo de problemas.

