Por que contratar mais desenvolvedores nem sempre aumenta a produtividade?
O Mito do Aumento Proporcional de Produtividade
Quando eu estava iniciando minha jornada na área de tecnologia eu tinha visibilidade apenas do operacional. Basicamente, eu estava restrito a achar que produtividade aumentaria se eu trabalhasse mais, escrevesse mais código e entregasse mais tarefas.
Embora essa visão não esteja totalmente errada, ela traz um grave problema: as pessoas frequentemente acreditam que contratar mais desenvolvedores aumentará proporcionalmente a produtividade da empresa, já que mais pessoas produzem mais código e resolvem mais tarefas.
E, acredite, esse pensamento não está restrito a pessoas inexperientes no mundo dos negócios ou na área de tecnologia. Mesmo pessoas bem qualificadas replicam esse mesmo pensamento.
O Mito do Aumento Proporcional de Produtividade
Primeiro, é importante lembrar que desenvolvimento de software envolve uma combinação de conhecimento técnico, experiência, inteligência e esforço operacional. Além disso, dependendo do produto, desenvolvedores precisam compreender o contexto do negócio para saber exatamente como resolver os problemas através do código.
Por que adicionar pessoas pode reduzir a produtividade?
Lei de Brooks
No livro "O Mítico Homem Mês" (1975), Frederick P. Brooks Jr. cita a Lei de Brooks, que afirma que adicionar mais pessoas a um projeto atrasado o torna ainda mais atrasado, gerando os seguintes efeitos colaterais:
Leva tempo para as novas pessoas se tornarem produtivas
A comunicação se torna mais difícil
Dividir tarefas entre pessoas se torna um desafio já que uma tarefa pode impactar a outra
Alguns trabalhos não podem ser feitos em paralelo ou compartilhados
Como resultado, adicionar mais pessoas torna a gestão do projeto mais complexa, podendo gerar o efeito contrário ao aumento de produtividade.
Além disso, quanto mais pessoas, menos cada indivíduo pode se sentir responsável, efeito conhecido como preguiça social.
Se considerarmos todas as variáveis envolvidas no aumento do time, chegaremos em um tema conhecido como economia de escala invertida, onde o custo de coordenação e gerenciamento aumenta desproporcionalmente ao aumento de produtividade.
Estudo de caso: onde uma empresa falhou
Cenário
A empresa havia recebido 70 milhões em investimentos, tinha mais de 20 desenvolvedores e um total de 100 funcionários. A pressão por resultados era grande e a cultura por velocidade de entrega reinava. Desenvolvedores estavam sempre correndo para entregar novas funcionalidades e trabalhando pelo menos 10 horas por dia. Não havia camada tática, apenas execução incentivada. Inicialmente, essa abordagem de "Go Horse" parecia funcionar bem, mas conforme o software crescia, os problemas começaram a surgir.
Onde a empresa errou?
Na tentativa de tornar tudo mais rápido é comum excluir a camada tática, então demandas são criadas e repassadas diretamente para desenvolvedores executarem, resultando na prática conhecida informalmente como "Go Horse"—um método improvisado e sem planejamento estruturado, no qual o foco está apenas na entrega rápida, ignorando qualidade e processos.
Outro cenário comum é quando o produto é simples ou a empresa está começando e não tem orçamento para montar a equipe completa. Por exemplo, uma startup recém-criada pode ter apenas dois ou três desenvolvedores e um fundador técnico que, além de definir a estratégia, precisa atuar também na organização e gestão das tarefas. Neste caso, é compreensível não ter uma camada tática explícita imediatamente, mas o profissional estratégico deve assumir temporariamente esse papel. Caso contrário, será essencial simplificar o produto até que a empresa possa estruturar melhor sua organização.
A importância da camada tática
A camada tática é responsável por organizar demandas, clarificar ideias, remover impedimentos e acompanhar o desenvolvimento. É como um maestro que garante que tudo flua com harmonia.
Consequências da falta da camada tática
A falta de uma camada tática gera muita incerteza para os desenvolvedores, que acabam gastando energia e tempo entendendo e organizando ideias antes de implementá-las. Muitas vezes, ideias são implementadas incorretamente, problemas são descobertos tardiamente e há perda de tempo e dinheiro com retrabalho.
Como solucionar esse problema?
Passos práticos para melhorar a estrutura organizacional:
Iniciar com um time pequeno: O responsável estratégico atua também como gestor tático inicialmente.
Aumentar a maturidade gradualmente: Conforme o produto evolui, gradualmente aumentar a maturidade dos processos, treinando ou contratando um gestor dedicado.
Expandir equipes após a estruturação: Após a estruturação da camada tática, a empresa estará apta a expandir equipes em pequenos grupos com gestores próprios.
A grande falha ocorre geralmente no segundo passo. A palavra "gradualmente" faz toda diferença, já que estruturar a camada tática demanda tempo e somente será necessária quando houver necessidade de escalar. Um exemplo prático disso foi exatamente da empresa mencionada anteriormente, que cresceu rapidamente de poucos desenvolvedores para 20 sem gestores e processos organizados para determinar como os profissionais deveriam trabalhar de forma coordenada. A ausência dessa camada fez com que a comunicação se deteriorasse, decisões tomadas por um time afetassem negativamente outro, gerando retrabalho, baixa qualidade e baixa produtividade. Portanto, escalar sem uma camada tática estruturada raramente dá certo.
Conclusão
Contratar mais desenvolvedores sem uma estrutura organizacional clara, especialmente sem uma camada tática, dificilmente resolverá problemas de produtividade. Portanto invista primeiro na maturidade organizacional, identificando e resolvendo falhas internas antes de aumentar o número de pessoas no time.

